Quando soube da festa, aquela festa, ela pensou que seria a data perfeita.
Moldada nos padrões contos de fadas e romances de banca, ela era o não querendo sim.
Acima do peso, abaixo dos padrões.
Meio pudor, mero amor.
O relógio apontava 21h37. Horas quebradas, minutos estranhos. E nada.
Nem olhares, nem sorrisos. Não.
Correu no espelho e se sentiu ridícula, num papel de mulherzinha que não era dela.
O banheiro lotado denunciava que não era a única, mas não queria chorar. Não. Novamente não.
Olhou na janela daquele salão e viu um bar, a sua meia-noite havia chegado e ela não queria virar abóbora.
O salto-alto foi para mão, calçada esburacada com sapato fino não era pra ela.
A garoa acabou com seu penteado, o vestido ganhou ares úmidos. Ela cheirava a chuva e derrota.
Depressão pede cigarro, pensou.
Chegou querendo sair, num espaço que exalava pinga.
Deu meia volta e esbarrou em alguém. Pensou ter encontrado a salvação da noite, mas só ouviu xingos.
Saiu e a garoa virou chuva.
Bosta.
Correu até o outro lado.
Correu até o ponto do táxi.
Correu até a porta de casa.
Correu até a cama.
Era o terceiro toque do despertador.
Atrasada.
A calça jeans estava na cadeira
A blusa na gaveta, era a primeira
Um banho de 15 minutos foi suficiente.
Sem maquiagem, sem perfume.
Fechou o portão e percebeu que a chuva ainda estava no céu.
Maldita!
O vento bagunçou tudo o que ela tentou arrumar.
Voou folhas. Voou folhetos. Voou papeis.
E antes que pudesse descontar sua raiva naquele pequeno pedaço de papel que grudou em sua mão, bateu o olho nele e sorriu.
Uma mensagem, uma palavra.
"Linda"
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
rascunhos #2
Então eu cheguei em casa e pensei na minha avó, na minha saudosa avó. Pensei o que ela acharia de mim, assim, agora. Será que conseguiríamos ter uma conversa de adultos? Será que eu entenderia finalmente suas histórias? E minha tia-avó, que mesmo sem eu compreender, tinha um amor excepcional por mim. Tia, quais são as suas opiniões políticas? Eu ainda sonho tanto como antes? As vezes me surgem essas dúvidas sobre o que é crescer, o que é ter caráter, o que é pensar no futuro. E eu penso que parte de mim sonha e se excluí ou viaja num passado para responder o presente. Hoje eu desejei desesperadamente um banho de chuva. Que meu celular descarregasse, que o trem quebrasse, que os compromissos cessassem. Numa conversa com uma atendente de uma lanchonete, falamos do passado e ambos concordamos que o melhor dessa vida são as memórias. Mas eu ainda tenho dúvidas sobre quais lembranças futuras eu quero criar.
*postado originalmente no Facebook em 17/10/2013
*postado originalmente no Facebook em 17/10/2013
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