- ele não se identifica com nada. nada. é como se o mundo à sua volta estivesse em outra frequência. não curte marcas, não ouve pop americano, não assiste séries do momento. não. o menino com sonhos caminha numa rotina que parece lhe afastar de tudo. o menino na rotina pensa que seus sonhos são tão em incomuns quanto ele. num portal da internet, vê a história de alguém que se sentia tão diferente, assim como ele se sente. mas a diferença não suportada fez com que aquele alguém se matasse. e agora? "é suportar ou morrer, é isso?", pensa. "é isso?"
- a escassez disfarçada de economia não resiste às necessidades daquela família numerosa. o choro da menina de dois anos existe para pesar mais a consciência daquele que não tem mais por onde recorrer. ninguém vive de farinha e ovo. não. sai daquele ambiente perturbador e percebe que nem todo amor familiar disfarça a sensação de inutilidade que sente. do outro lado, espia a dona maria saindo de casa. espia o quão baixo é o portão daquela casa. espia a porta destravada. espia uma geladeira cheia de comida. "dona maria. tu não deve saber o que é viver sem nada. eu não quero roubar, eu não vou te devolver. que deus me julgue. que deus me perdoe. que deus te dê em dobro"
- ela atingiu 1.257 amigos no facebook. passa seus dias procurando o que compartilhar com seus seguidores. sim, ela possui seguidores. a última postagem não lhe rendeu tantos likes quanto queria. "outro look do dia, será?". tirou print e colocou o número de cutucadas que recebeu hoje - recorde! no restaurante, fez check-in; na praia, fez check-in; no shopping, tirou foto daquele vestido lindo que experimentou e colocou no instagram #instagata #levoounãolevo. ao sair da última loja, se depara com um fã virtual. "oi", ele disse. "desculpa amigo", ela interrompe, "eu não sou de socializar".
- o cheiro de sangue se mistura às misturas químicas do lugar. "nos julgaram! nos condenaram! nos colocaram abaixo de todo mundo!", grita o alguém para a pequena multidão. "nossos mísseis estão prontos e apontados pra lá! o país de primeiro mundo será o primeiro a morrer!". distante da gritaria, um homem observa as reações de todos aqueles homens fardados que comemoram, que vibram. "a destruição é a nossa vingança!". tentando entender o motivo de tudo aquilo, o confuso homem grita: "isso trará as pessoas perdidas de volta?". seus olhos se fecham, sua força se perde, sua resposta não vem.
- está tudo pronto para o novo sistema. a partir do dia primeiro, aquele site será diferente. o melhor jornal do país tem que ter o melhor site, não? todo o conteúdo da versão impressa estará em versão digital. tudo! e a partir do dia primeiro, as assinaturas da versão digital começarão a ser vendidas. tudo será cobrado. a informação entrará no catálogo de ofertas online. "mas nosso papel como jornalista não é meramente informar?", pergunta o inocente. "mas tem alguém que vive sem dinheiro?", responde o chefe.
- o deputado religioso recebeu a faixa de presidente da comissão. não sabe bem o que são direitos humanos, mas o que isso importa? não detesta os negros, apenas acha eles inferiores. não odeia os homossexuais, apenas pensa que eles não encontraram o caminho de deus. as mulheres? ah, por que elas insistiram tanto em sair de casa? os trabalhos do lar precisam de seus dons únicos. do outro lado, pessoas se mobilizam contra o poder que ele acabara de receber. "ai, quanto exagero!", pensa. enquanto isso, seu partido começa a se preocupar com a repercussão negativa de tudo. "existe a chance de cairmos?", um pergunta. "que nada!", o outro ri, "definimos os candidatos da próxima eleição, tudo está como sempre foi". "o palhaço, o cantor brega e a jovem religiosa?", pergunta o primeiro. "sim", o outro responde. "e as propostas de campanha?", novamente questiona. o segundo tira uma pesquisa, índices de popularidade, e responde: "não precisamos disso, esse povo não sabe votar"
Nenhum comentário:
Postar um comentário